Mesmo com crise na Venezuela, Maduro deverá ser reeleito

Os venezuelanos vão às urnas no domingo em uma eleição presidencial controversa, cujos resultados podem não ser reconhecidos pela comunidade internacional. A economia venezuelana afundou nos últimos três anos, com o PIB contraindo 35,8% no período e a inflação anual superando os 2.000%. O presidente Nicolás Maduro aparece nas pesquisas até 12 pontos percentuais atrás do opositor Henri Falcón. Mas, ainda assim, sua vitória é dada como certa.

Segundo a consultoria Datanálisis, em Caracas, apesar de 75% dos eleitores se declararem de oposição, apenas um quinto se diz disposto a votar. Dentre os que se denominam chavistas, 90% afirmam que votarão no domingo.

“Maduro ainda dispõe de votos por conta da gigantesca estrutura de patronagem que a Presidência da República detém, em um país em que o Estado é fundamental como empregador e alocador de recursos e de bens básicos subsidiados”, observa Luiz Pinto, do Brookings Doha Center.

O analista Raul Gallegos, da consultoria Control Risks, afirma que são três as principais razões que levam parte dos eleitores a votar em Maduro, mesmo em meio à maior escassez de alimentos e remédios da história do país. “São venezuelanos que dependem economicamente do governo, funcionários de empresas ou órgãos públicos que temem retaliação se votarem contra ou aqueles que se identificam com o extremismo do chavismo”, afirma. “Não descartaria ainda os que votam pela manutenção de determinados benefícios e acessos a privilégios por estarem próximos a Maduro.”

Dona de uma mercearia em Caricuao, no oeste de Caracas, Yauni Ciscineros diz que votará em Maduro porque, “apesar de tudo, o presidente continua nos dando comida”. “Há uma guerra econômica dos empresários contra o governo. Os produtos são vendidos a preços cada vez maiores, para que a população seja asfixiada e ocorra uma convulsão social”, diz, reproduzindo o discurso oficial. “Mas Maduro ainda mantém nossas cestas-básicas [programa Clap] e nos presenteia com arroz, farinha, açúcar e macarrão a cada 15 dias.”

Eucario Guillarte, da Comuna Rogelio Castillo Gamarra, na favela de Petare, em Caracas, diz que a melhor opção contra a “manipulação dos produtores de alimentos”, que “escondem” itens cada vez mais escassos nos mercados, é votar pela continuidade de Maduro. “Se Falcón ganhar, quem poderá conter esses empresários e a oposição?”, diz. “A principal proposta de Falcón é dolarizar a economia, o que nos deixaria totalmente nas mãos do FMI e dos EUA.”

Assim como nas eleições passadas, a pressão sobre funcionários públicos – cerca de 2,5 milhões – para votar no chavismo segue disseminada. Um funcionário do Ministério da Saúde, que não quis ser identificado, conta que ontem foi coagido a participar da cerimônia do fim da campanha de Maduro e que foi advertido sobre domingo.

“Falam que quem não votar em Maduro será demitido. Mas eu não quero colaborar com isso. Se me despedirem, terei motivo a mais para deixar o país”, diz. “No domingo meu chefe ligará para saber se fui votar. Eu não sairei de casa, mas direi que votei em Maduro.”

A abstenção, observa Gallegos, é o principal fator a favor de Maduro. “A maioria dos eleitores crê que seu voto não serve para nada, que o governo vai roubar, e que é perda de tempo votar no domingo. Isso pode fazer o chavismo vencer sem fraude nenhuma.”

Com base em pesquisa do Datanálisis, ele lembra que hoje a Venezuela possui 14 milhões de eleitores, dos quais 75% (10,5 milhões) se dizem de oposição e 25% (3,5 milhões) chavistas. Mas 90% dos chavistas (3,1 milhões) e só 20% dos opositores (2,1 milhões) se dizem dispostos a votar. Se essas projeções se confirmarem, diz Gallegos, o chavismo pode ganhar por até 1 milhão de votos. As pesquisas de intenção de voto não perguntam se o entrevistado vai votar.

“A pergunta não é se Maduro vai ganhar, isso já está dado. A questão é o quanto ele terá de fraudar essa eleição para vencer”, diz Gallegos. “O governo já violou as leis eleitorais para antecipar a eleição, conseguiu deixar de fora os opositores que tinham mais chance de vencer e, em outras eleições, mudou centros de votação sem avisar. Está mais do que claro que fará o que for preciso para ganhar.”

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