
Não quero focar no que alguns podem considerar erro jornalístico e nem condenar o Noblat, entrando na questão de checar ou não as informações. Isso é assunto para um outro blog em outro horário.
Na ótica guerrilheira, foco desse blog, só quero levantar questão de “informação se espalhando”, de influenciadores versus influenciados, de “créditos de confiança” e etc.
Vejam o caso da brasileira que declarou ter sido atacada por neo-nazistas suiços, por exemplo. Tudo começou com um email recebido por um blogueiro em seu celular (como por ele mesmo explicado aqui: ). Este email gerou o primeiro relato publicado no Brasil sobre o caso Paula Oliveira, ou o “furo em primeira mão no blog” (veja aqui).
Pois bem, este furo, pelo poder de influência do blogueiro que o publicou rapidamente chegou na grande mídia. Logo em seguida no governo, na comissão de direitos humanos da ONU e também se transformou na conversa preferida nos “bebedouros da firma”, nos salões de cabelereiro, nas mesas de bar. E pela sua força na mídia e nas ruas alimentou ainda mais as discussões na web, parindo comunidades no Orkut e posts indignados.
Uma bola de neve de imensas proporções. Proporções tão grandes que se a Suiça não fosse um país tão neutro e bem resolvido, certamente teríamos aí o primeiro case de “incidente diplomático” causado pelo poder de um blogueiro.
“Blogueiro”: um indivíduo (com qualidades e defeitos) que decide o que posta ou não, sem o olhar de um editor ou de um “conselho editorial”, quase sempre sem a ajuda de uma “segunda opinião”. Um cara praticamente sozinho com sua consciência e experiência que filtra os emails de conhecidos e desconhecidos, julgando sumariamente se aquele conteúdo é válido para entrar na conversa diária que leva com seus importantes leitores.
O sonho de todo mundo lidando com propaganda e pensando nestes novos paradigmas de comunicação é criar uma bola de neve com iguais proporções para a sua campanha. E com este “case suiço” posso ilustrar algumas visões pessoais que tenho sobre este sonho:
- Blog tem força para influenciar a mídia, não as conversas no cabelereiro. Se você quer chegar no povão semeando algo em blogs, mire na mídia. Uma coisa que “está bombando na blogosfera” muito provavelmente está sendo ignorada nas ruas. Quem acredita nisso está assumindo que é o centro do universo, quando na verdade nós é que estamos na periferia. O “centro do universo” ainda é o Jornal Nacional.
- Um blogueiro só vai se deixar levar pelo que você quer semear se aquilo traz algum benefício para a sua vaidade/reputação.
- Não citei o benefício monetário no item anterior, repararam? O blogueiro pode até publicar algo em troca de grana, mas aí a chance da sua bola de neve continuar rolando diminui bastante. A grande mídia só se deixa levar por um blogueiro se ele tem credibilidade. Blogueiro que vende opinião não tem credibilidade. Pelo menos não com pessoas inteligentes.
- Quanto mais credibilidade o blogueiro tiver e quanto mais benefícios a sua história oferecer, menos barreiras ela vai enfrentar para ser replicada na grande mídia. Chegando em alguns casos ao absurdo de sequer ter a sua veracidade checada.
“O poder de um blog não está em quantos visitam, mas sim em quem visita”. É impressionante ver como a turma de “social media” adora replicar esta frase de efeito (muitas vezes para justificar para um anunciante porque aquela citação num blog de 200 vistas/dia é “legal”), mas na prática ignora isso, quase sempre propondo ações que em vez de seduzir o blogueiro pelo benefício de reputação acabam se revelando latões de lixo para jogar a sua credibilidade fora.
[]´s Mr Wagner
sensacional!
abs
Wagner, seu artigo é muito bem colocado, mas tenho uma visão diferente. Nesse caso específico, o alavancador da notícia é ela própria devido ao seu perfil de horror e intolerância (pelo menos à primeira vista).
Ao meu ver, a notícia teria tido a mesma magnitude se tivesse sido inicialmente divulgada em qualquer outro meio, seja ele social media, offline ou no Jornal Nacional.
É como a mensagem do estudante que twittou sobre estar sendo preso durante um protesto no Egito. Ele não tinha popularidade e ainda assim a notícia alcançou o mundo rapidamente. E isso ocorreu devido ao fato de ser uma notícia curiosa.
Nesses dois casos, a própria notícia fez o principal papel para ser divulgada. Ela se fez valer ser digulgada, ser furada, independente do meio.
Mas não discordo de você sobre o poder dos blogs. :)
Também não discordo de você sobre o poder dos blogs, mas esse notícia ia chegar na mídia de uma forma ou de outra, o Noblat só foi um sortudo, assim como muitos jornalistas profissionais whatever que também são sortudos.
Concordo com o Fábio, e vou além: A notícia era tão boa que “apesar de blog”, vazou para a grande mídia.
É bom, melhor do que quando a Cicarelli fechou o YouTube, uma blogueira avisou ao UOL passando o furo, com todas as fontes, etc, e eles preferiram esperar a informação de uma fonte mais tradicional. A Info.
Apesar de bem colocada, sua opinião se confunde um pouco entre notícia e publicidade em blogs, que são 2 assuntos absolutamente diferentes.
Wagner,
O Blog do Noblat já é grande mídia. Não se trata de um desconhecido ou novato publicando em seu cantinho na blogosfera, mas de um jornalista muito conceituado e respeitado publicando no site do Globo, um dos maiores jornais do país. Também não sei até que ponto, principalmente em se tratando de uma história tão absurda e chocante, ele tem liberdade total de publicar sem consultar a direção do jornal. E se tivesse essa liberdade, se ele, para se proteger mesmo, não teria consultado a direção. Ninguém embarca numa história grande sem se precaver. Uma nota sobre bastidores da política é uma coisa, uma bomba dessas é bem diferente. O que me pergunto como jornalista, e acho que todos deveriam se perguntar é: o que você faria nessa situação? Pelo que li, a informação foi checada e rechecada. É como se o Noblat tivesse um straigh flash na mão e apostasse tudo para depois descobrir que a fraude tinha um royal straigh flash.
Acho que o usuário salsinha de internet não diferencia um blog de um portal, ou se um site mesmo.
Tudo ganha credibilidade se encontrado no google.
foi isso que eu ouvi o Mentor falar no campusparty: relevância em troca de audiêcia!
Meu blog tem visits mas é uma merda… huahuauhaha…. então esse negocio de 200 vistass importantes cntam mesmo….
Acho que nao pegaram o fio da meada… O lugar especial na meritocracia formal e informal que todo mundo sabe que o Noblat possui, e o grande apelo do caso dessa moça é o de menos. De certa forma, são extrapolações. Mas que servem muito bem para provar (ou demonstrar) um ponto.
ABS
Fabio e Cardoso, sem dúvida o fato era muito suculento e eventualmente alguém daria o furo caso o Noblat não postasse. Talvez até esse medo de perder o furo seja o que causou a precipitação.
Mas na boa, o cotidiano é inundado de fatos tão suculentos quanto uma brasileira grávida atacada na Suiça. O que decide se eles entram na roda de discussão ou não é a famosa reunião de pauta. Furar esta barreira usando um blog como canal é um belo atalho. Não pelas falhas que ele pode ter e acabar publicando a versão que você quer, mas pela credibilidade que ele goza de ser replicado pelos 4 cantos sem ser questionado.
O Noblat praticamente copiou e colou um email no seu blog, relatando toda a versão do pai. Isso foi suficiente para convencer seus pares do jornal e a coisa tomar as proporções que tomou.
Se não fosse o Noblat e fosse outro, algumas horas depois? Aí não sei dizer. Essas bolas de neve (que já acompanhei de dentro e de fora) são sucessões de “pessoas certas na hora certa”, ou em alguns casos, “pessoas erradas na hora certa”.
Esse fato polêmico foi marcante pela proporção que tomou e pelo seu conteúdo. Mas ilustra bem o ponto de que todos os dias alguns emails se transformam em posts, alguns posts se transformam em notícias, algumas notícias se transformam em papo de cabelereiro. E apesar desta reação em cadeia parecer óbvia, ela é repleta de detalhes que determinam se aquele fato que você quer usar como ignição do boca-a-boca vai para frente ou não.
Wallace,
Notícia e propaganda não são assuntos completamente diferentes quando se trabalha com boca-a-boca. Abs
Marlos, o Noblat é grande mídia sim. Mas uma grande mídia de um homem só. Com todas as suas vantagens, desvantagens e fragilidades. Essa é a beleza do mundo conectado.
Quanto ao poker… Bem, os meus maiores tombos foram aqueles onde eu me sentia mais confiante. Os melhores jogadores seguram a adrenalina até mesmo quando caem com um sraight flush na mão.
Aqui foram apontados diversos pontos de vista. Uns defenderam que a notícia, independente do meio, era – e foi – de alto impacto. Outros, como o próprio autor do artigo – diga-se, de passagem, muito relevante –, que o meio blog e o personagem do blogueiro, contribuíram significativamente para difundir e alavancar a notícia.
Antes de tecer meu comentário, deixo claro que tenho em mente que, para mim, o Noblat é –sempre foi e sempre será – jornalista. Ele é blogueiro por conseqüência do novo panorama midiático. Ou seja, o poder de blogueiro que ele consquistou foi graças ao seu poder como jornalista. Apenas o meio foi adaptado a atual realidade.
Agora, posso parecer contraditório, – brincadeiras a parte – mas para mim, tanto a notícia (mensagem) foi forte o suficiente para ganhar espaço nas mídias – sociais, virtuais, tradicionais – como o papel do blogueiro (Noblat, que não é blogueiro) foi fundamental ao dar o passe inicial. Porém, tenho a convicta certeza de que se ao invés do Noblat ter sido o difusor inicial da mensagem, fosse o “Zé Mané” do Blog A, B ou C – coloco entre essas opções – a notícia teria passado pelo processo similar ao exemplificado pelo Cardoso, no caso Cicarelli.
É fato consumado que o blog, a cada dia, ganha mais força e relevância entre as mídias. Porém, sem um blogueiro (autor) respeitado e qualificado, sua “força” se perde e, também, o seu poder de atrair leitores de alto nível, formadores de opinião, mesmo com seu formato de mídia social. Um blog sem a “cabeça” só atrairá “miguxos e miguxas” e, como também é fato, não terá relevância alguma, seja na blogsfera, seja no mundo real.
Manson, não encontrei um e-mail teu pra enviar isso, então vou mandar (meio na cara dura e receoso, hehehe) o link por aqui:
http://www.flickr.com/photos/pablocasado/3295187198/
Fizemos inspirado nas camisas e flyers que você costumava fazer por aqui no Cocada.
Concordo lá em cima com o Fábio Seixas. Acho que tudo isso rendeu muito pro Noblat não pelos leitores, ou credibilidade, mas sim pelo terror que o acontecimento causou nas pessoas.
Concordemos que a situação de ataque por neonazistas era bem apavorante.
O problema é que com a verdade, a situação ficou ainda mais apavorante.
Wagner, o fato do blog do Noblat ser percebido, por n motivos, como grande mídia que realmente é, pra mim, tem uma relevância especial nessa história tão cheia de outras relevâncias.
“Grandes mídias de um homem só” podem ter atratividades diversas, seja para a veiculação de notícias ou para a propaganda no que dizem respeito ao seu alcance pra quem trabalha com o boca-a-boca. Influência de quem os lê é uma atratividade óbvia e é claro que, em muitos casos, quantos os lêem também traz atratividade complementar em vários contextos sim.
Quanto a fato de seduzir o blogueiro pelo benefício de reputação acabar revelando “latões de lixo para jogar a sua credibilidade fora”, apesar de eu não achar que seja uma verdade absoluta, em muitos casos é exatamente isso o que pode acontecer mesmo.
Grande abraço!
Manson, acabei de escrever sobre isso também, inspirado por você, no bom sentido. Abraços.
http://euemeuegogrande.wordpress.com/2009/02/20/mais-lenga-lenga-sobre-posts-pagos-ou-como-conseguir-ser-odiado-pelas-agencias-e-pelos-blogueiros/
Muita interessante essa discussão. Contribuo para ela com o comentário que segue.
Não escrevi a primeira notícia sobre Paula Oliveira com base em uma mensagem do pai dela que recebi por celular. Recebi a mensagem. Entrevistei-o longamente por telefone. Falei com Paula. Entrevistei a cônsul-geral do Brasil em Zurique. Entrevistei a madrasta e a irmã de Paula no Recife – e uma amiga que morou com ela durante cinco anos. Pedi fotos da Paula grávida – recebi. E fotos dela depois da suposta agressão – o companheiro dela suíço me mandou. Só não ouvi o outro lado (polícia e médicos) porque eles se recusavam a falar. Jornaloismo, em muitos casos, é informação em movimento. Naquele momento a história era aquela. Jornalista não tem poder de polícia. O barulho promovido pela mídia brasileira fez o governo suíço se apressar e contar parte do que diz ter descoberto. Noblat
a justificativa do noblat só serve pra quem não lê o post-denúncia que ele publicou sobre o tema e começou tudo: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=brasileira-torturada-na-suica-aborta-gemeos&cod_Post=160714&a=575 . basta lê-lo para ver que os termos usados são taxativos e pouco jornalísticos, mas 100% blogueiro preocupado em dar o furo ‘em primeira mão’: ‘Brasileira torturada na Suiça aborta gêmeos’; ‘passou a retalhar várias partes do seu corpo’, ‘ato final da sessão de tortura foi entalhar nas duas coxas de Paula a sigla SVP’ – mais do que mostrar um lado da história, ele estava desse lado. e quem acompanhou o blog dele viu que ele ainda começou a insinuar coisas sobre a polícia suiça sem citar fonte (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_Post=161826) e só agora veio falar que é tudo uma suposição (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=sobre-paula-supostamente-agredida&cod_post=163451&a=111), uma perspectiva que no post-denúncia não se acha nem como viés. quem se apossa e/ou apregoa o poder de liberdade de imprensa tem que assumir responsabilidades, ou simplesmente viver a política de reciprocidade: enquadrar a si próprio dentro das exigências que faz aos outros (no caso da imprensa, podemos começar pela transparência). tudo menos isso é hipocrisia, mas isso a gente já tá cansado de saber, né?
Concordo em gênero, número e grau quando vc diz que se quer aparecer ao grande público, mire na grande mídia. A internet é mainstream só para uma quantidade pequena, “nerd” e ínfima de pessoas aqui no Brasil. Talvez no exterior, a realidade já seja um pouco diferente. Muito bom o post! Abs, Carol Terra
É óbvio que não dá para esperar a informação final e totalmente apurada para escrever a notícia. Precisa é citar a fonte e colocar bem claro que em que ponto está a apuração. Confiar um pouco na inteligência alheia.
Cássio