Espalhe é a primeira agência de marketing de guerrilha do Brasil.

Debate no Estadão

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Faz pouco tempo que me aproximei da blogosfera. Apesar de ser responsável pela postagem diária de um dos blogs corporativos da Espalhe e de colaborar eventualmente com este espaço, nem me considero ainda uma blogueira. Prefiro dizer que sou leitora de blogs.

Ao longo dos últimos meses, a quantidade de informação que busco em jornais, revistas e na TV diminuiu drasticamente. Talvez por ter topado com gente formada em jornalismo que não sabia apurar nem escrever, confesso que me surpreendi quando – com uma ajudinha mínima do pessoal aqui da agência – comecei a descobrir blogs alimentados por amadores com textos muito bem escritos, informativos e, freqüentemente, bem-humorados na medida exata. Tem lixo? É claro que tem. Lixo tem em todo lugar, por vários motivos, inclusive porque tem gente que gosta do que a maioria considera lixo. Isso para mim é uma coisa tão óbvia que ontem me vi angustiada, ou talvez constrangida, com os rumos que o debate do Estadão tomou.

Angustiada a ponto de ter abandonado o YouTube algumas vezes. Num dos períodos que estava com os fones no ouvido, escutei um palestrante com ar professoral explicar que um dos problemas que os blogs enfrentavam em relação à credibilidade é que neles nem sempre a divisão editorial/ comercial estava clara. Calma aí! O que esse assunto está fazendo nessa mesa? Os próprios blogueiros sabem que tudo o que envolve a monetização dos blogs ainda tem que ser muito discutido e amadurecido – vide o BlogCamp. Como fazer render? Como ganhar dinheiro hoje de forma ética para poder continuar a ter leitores e a ganhar dinheiro amanhã? Além de ter sido um desvio do tema original, foi uma covardia - talvez até involuntária – enveredar por esse caminho. Mas serviu para confirmar uma sensação que eu já tinha: blogueiros, em sua grande parte, são ingênuos. Ok, o “em grande parte” é uma tentativa de fugir da generalização dos macacos, ainda que certamente eu vá ser acusada de estar incorrendo no mesmo erro da famigerada campanha.

Mas vamos aos fatos: “Quando um jornal faz um informe publicitário, idealmente, o que dita a ética, é que a publicidade fique claramente separada do conteúdo editorial”, disse o Pedro Dória (com algumas interrupções). Agora reproduza a frase, com direito a “salvaguarda” “idealmente” e uma pequena substituição: “Quando um blog faz um informe publicitário, idealmente, o que dita a ética, é que a publicidade fique claramente separada do conteúdo editorial”. Lindo, mas quem vive no mundo ideal? Da mesma forma que clãs rivais têm usado seus jornais prioritariamente para defender feudos políticos em algumas cidades do país, que aquele jornalista do New York Times inventava suas reportagens, que colunistas políticos/ sociais vira e mexe trabalham sob a suspeita de interesses escusos, que a imprensa brasileira errou feio no caso da Escola Base, alguns blogs têm pecado diante do crescente interesse do mercado publicitário – e provavelmente muitos outros vão pecar, levando-se em conta, também, o fato de este ser um fenômeno relativamente novo. Isso não justifica que toda a mídia impressa seja jogada no mesmo saco, nem que todos os blogs sejam considerados fontes não confiáveis de informação. Estou exagerando ou de fato era simples rebater essa linha de raciocínio torta?

“A blogosfera tem um problema de escala”, continua o jornalista, sustentando que os blogs ainda seriam muito pequenos ou imaturos para promover a tal separação entre editorial e comercial. Sinceramente? Se alguém vai receber dinheiro ou favores para que um fato seja adulterado, que diferença faz se é o publisher, o Fulaninho que obedece o publisher ou o Sicraninho que obedece o Fulaninho que obedece o publisher? Faltou dizer uma coisa: o que resta ao receptor quando um canal de TV ou um jornal erram feio? Que acesso ele tem a esses veículos, donos de uma espécie de “credibilidade inercial” conquistada com os anos de estrada, a propaganda e, por que não dizer, o mérito de alguns representantes da classe? Como fazer frente, tentando emplacar algumas linhas na seção de cartas aos leitores? Quantas são as opções? O tamanho dos blogs, o tal “problema de escala”, é, para mim, parte da solução. Se eu não concordo, posso deixar um comentário. Se tenho mais a dizer, faço um blog. Como receptor, quando decepcionado, minhas opções tendem ao infinito.

“Ah, mas no futuro empresas que fazem blogs também serão grandes corporações, com dinheiro para propaganda etc.”, pode dizer alguém. Ok, no futuro talvez. Mas só posso falar do que acontece agora. E agora é hora de conhecer melhor a blogosfera, não de falar mal dela. Para que não tenhamos mais que criar campanhas publicitárias sobre blogs e participar de debates sobre blogs sem referências de leitura online. Para que, na hora de criticar a blogosfera, isso não seja feito de forma generalista e injusta. Blogs, revistas, jornais, fanzines, programas de rádio, sinais de fumaça, redes de TV, newsletters e etc. e tal não são apenas entregues a nós, sintonizados ou acessados por nós. São também feitos por nós, são portanto o retrato do que nós somos, e nós erramos bastante. A diferença crucial entre o blog e a mídia convencional não está na qualidade do conteúdo. Está no fato de que, se o blog erra, é possível que o puxão de orelha chegue muito rápido. Está no fato de que essa mesma agilidade e proximidade que conspiram para uma espécie de seleção natural, proporcionam um ambiente colaborativo que tem potencial para ser muito enriquecedor. Essa promessa é sensacional e merece ser experimentada.

Bjs, pati

Imagem do diretor de criação da Talent que, sem ter e nem procurar referências, fez uma campanha para falar mal dos blogs e vender credibilidade.


11 comentários

11 comentários para “Debate no Estadão”

  • Bruno Gonçalves disse:


    É comum, em qualquer tipo de mídia tradicional, dar credito ao discurso do “grande”, independente do objeto central ter sido ou não manipulado tendenciosamente.

    Nos blogs, normalmente há essa tendência do autor expressar o seu ponto de vista e ser tendencioso. E é isso que faz um blog ter visibilidade e abrir a oportunidade para o diálogo rápido com seus leitores, gerando o feedback que acaba sendo complicado, por exemplo, num grande canal de TV.

  • Bartira Pontes disse:


    O que mais me irrita em toda esta discussão é a mania de escassez de possibilidades do universo que parece que está rolando. Tipo: para eu existir, o outro precisa morrer. No caso do Estadão: para ter credibilidade, o resto da internet não tem credibilidade. Na minha opinião, a democratização da produção de conteúdo e do direito à opinião é uma evolução, e deve ser desenvolvida por aqueles que quiserem, assim como a evolução dos editoriais de mídia impressa, TV, rádios e afins, que talvez hoje tenham canais reduzidos de resposta do receptor, deva ser seguida e desenvolvida por aqueles que quiserem. Não são todos, nem a toda hora que se querer produzir conteúdo. Ao mesmo tempo que todos em algum momento vão querer se expressar. Então, concordando com o post, deixe que a seleção natural mantenha vivo o que é para estar vivo (e olha, que vai ser coisa pra caramba).

  • Helcio disse:


    Parabéns Patrícia, muito legal o texto!
    Apontar o dedo e generalizar é moleza. Difícil é olhar o próprio umbigo.
    Bjs

  • Luiz Carioca disse:


    Eu acredito que essa nova experiência é ótima até mesmo para gerar senso crítico na população, nos espectadores. O que é uma boa notícia pra Israel, pode não ser uma boa notícia pra Palestina. É ótimo ter várias fontes. O caráter de dono da verdade dos jornais e TVs brasileiras, acaba formando uma sociedade burra e intolerante. Intolerante sim, pois não aceita discordâncias, se a mídia é contra a ocupação da USP, quem é a favor, torna-se um subversivo idiota. Com diferentes pontos de vista, e notícias não politizadas é ótimo pra gerar senso crítico na sociedade.

  • Luiz Yassuda disse:


    Bom o texto, Patrícia.

    Só acho que este debate não vai servir para mudar a cabeça de ninguém. Publicitários old-school continuarão pensando como João Livi, jornalistas old-school também pensarão como o Dória e blogueiros já estão lendo e criticando todas as análises do debate, e continuarão pensando como blogueiros (old-school?).

    Na verdade, serviu para fechar um primeiro capítulo, “Do dia que o Estadão conheceu a blogosfera”. Aguardemos os próximos fascículos em uma banca próxima.

    =)

  • gfortes disse:


    A melhor definição: publicitários old-school como João Livi, jornalistas old-school como o Dória.

  • Mamendes disse:


    Foram estes mesmos que seguraram o quanto puderam a iluminação a gás, enquanto minavam a opinião pública sobre a lâmpada elétrica.
    É bom que todo mundo se reinventa.
    E Não precisa de muita briga, eles querem os últimos 15 minutos de fama, enquanto os blogs têm todo o futuro pela frente.

    []’s

  • Mamendes disse:


    Foram estes mesmos que seguraram o quanto puderam a iluminação a gás, enquanto minavam a opinião pública sobre a lâmpada elétrica.
    É bom que todo mundo se reinventa.
    E Não precisa de muita briga, eles querem os últimos 15 minutos de fama, enquanto os blogs têm todo o futuro pela frente.

    []’s

  • Lucia Freitas disse:


    Lindo texto
    Um novo mundo em construção e a gente no olho do furacão. Todos: old-school, new school, vem-vindo school. Porque tudo vai mudar, rápido, rápido… e todos seremos os protagonistas.

  • Patrícia disse:


    O debate talvez não mude mesmo, Yassuda. Mas nem precisa, né? O furacão, como diz a Lucia Freitas, está aí para ser “surfado”.
    Que bom que vocês gostaram do texto. Quando me dei conta do tamanho que ele tinha ficado, achei que ninguém teria disposição para ler :o)
    Bj!

  • Blog de Guerrilha — Lembram da Talent? disse:


    […] é aquela agência de propaganda que fez uma campanha para o jornal Estado de S. Paulo onde advertia para os perigos de se encontrar conteúdo não confiável na internet, especialmente […]

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